A retoma
parece ter chegado ao recibo de vencimento de quem ocupa cargos de
responsabilidade nas empresas portuguesas. Um estudo da consultora Mercer, que
analisou as políticas salariais de 302 empresas, mostra, pela primeira vez nos
últimos anos, uma mudança de tendência: se em 2012 e 2013 os salários nominais
(o que se recebe efetivamente no final do mês) desceram em praticamente todos
os níveis hierárquicos, em 2014 os cargos de direção geral e administração
conseguiram aumentos na ordem dos 3,31%.Os diretores de primeira linha e as
chefias intermédias tiveram crescimentos de 1,64% e 1,14%, respetivamente.
Essa não foi a realidade para os trabalhadores com funções
comerciais e vendas ou para os operários. Nestes casos, registou-se uma descida
de ordenado que chegou aos 1,41% (operários) e aos 0,14% (comerciais). Noutras
funções, como administrativos ou quadros superiores, a evolução face a 2013 foi
quase residual: 0,44% e 0,97%, respetivamente.
“A
recuperação está a acontecer nas funções de maior conteúdo funcional e
responsabilidade. É uma tendência que não é estranha: com a crise, os salários
praticados nestas funções tiveram uma maior penalização e quando há retoma, as
empresas têm tendência para reter estes recursos, cuja perda tem implicações
mais altas em comparação com outros grupos de colaboradores”, explica Tiago
Borges, responsável na Mercer pela área de estudos de mercado e de compensações
salariais.
Em anos
anteriores, a elevada taxa de desemprego fez baixar os ordenados. Com mais
pessoas à procura de emprego e um número reduzido de oportunidades, as empresas
conseguiram pagar salários mais baixos. Agora, com a diminuição do desemprego -
está em queda há 15 meses consecutivos e situou-se nos 14% em Julho, de acordo
com o Eurostat – “as organizações já não estão a conseguir descer os salários”.
“Há uma inversão do ciclo e como seria de esperar está a notar-se mais nas
áreas de administração e direções de primeira linha porque também foram as mais
prejudicadas no processo de ajustamento”, diz Tiago Borges.
Resultados
financeiros e desempenho pesam na decisão
Mas o fenómeno de redução salarial continua a ser uma realidade para os
operários ou trabalhadores nas áreas comerciais ou de vendas. O consultor
acredita que em 2015 “eventualmente” já haverá “alguma recuperação para estes
níveis hierárquicos”, mas as perspectivas de alguma “normalidade” no que toca a
aumentos ainda não são muito optimistas.
“Tipicamente
os aumentos são alinhados à inflação, que está em níveis residuais. Os salários
deverão, pelo menos, acompanhar esta evolução para que não haja quebra de poder
de compra dos trabalhadores, mas no caso dos operários, juntando a descida
salarial verificada à inflação, estaremos a falar de uma redução de 2% do poder
de compra”, analisa.
Os
resultados financeiros da empresa e o desempenho do trabalhador são os fatores
que mais influenciam a atribuição de aumentos. A estes juntam-se o
“posicionamento face ao mercado, a equidade interna, diretrizes da casa mãe,
orçamento aprovado e os acordos coletivos de trabalho”. A antiguidade ou a
hierarquia “são os fatores que menos influenciam a atribuição do incremento
salarial”, lê-se no estudo, denominado Total Compensation Report 2014.
Outro
sinal de alguma recuperação foram as respostas dadas pelos gestores sobre as
intenções de contratação. A grande maioria (73%) pretende manter o seu quadro
de pessoal, mas o número de empresas que prevê aumentar (19%) é superior ao que
prevê diminuir (8%). “É a primeira vez que isto sucede nos últimos cinco, seis
anos”, diz Tiago Borges.
22%
adiantam salários aos trabalhadores
Em 2014, 22% das empresas adiantaram salários ou concederam empréstimos a
trabalhadores com dificuldades financeiras. A grande maioria destes
adiantamentos (94%) foi motivada por “situações de emergência”, despesas de
hospitalização (67%) e educação (17%). Em comparação com anos anteriores, a
percentagem diminuiu . Em 2012, esta prática foi registada em 27% das
organizações.
Apesar da
crise, as empresas inquiridas pela Mercer estão a manter os benefícios que
oferecem aos colaboradores. Cerca de 90% das empresas oferecem um plano médico
e 38% concedem um complemento de subsídio de doença. No estudo, são ainda
analisados os níveis salariais dos recém-licenciados: no primeiro emprego
recebem entre 12.600 e os 18.075 euros por ano.
In: Jornal
Público
http://www.publico.pt/economia/noticia/salarios-dos-gestores-de-topo-aumentaram-mas-cairam-nos-trabalhos-menos-qualificados-1668567